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Janeiro Branco e saúde mental no trabalho

  • Foto do escritor: Diego Farack
    Diego Farack
  • 5 de jan.
  • 5 min de leitura


Janeiro costuma ser o mês das metas: produtividade, expansão, novos contratos, recomeços. Mas, nos últimos anos, janeiro também virou um convite coletivo para falar de um tema que impacta resultados, relações e vidas: saúde mental. É por isso que existe o Janeiro Branco, uma campanha de conscientização voltada ao cuidado emocional e à prevenção do adoecimento psíquico.


Em 2026, essa conversa ganha ainda mais força porque o tema deixou de ser apenas “boa prática” e passou a ser encarado como gestão de risco. A NR-01 atualizada (com foco em GRO/PGR e inclusão de riscos psicossociais) ajuda a reforçar algo que muita gente já percebia na rotina: estresse crônico, assédio, sobrecarga e ambientes tóxicos não são “problemas individuais isolados”, são fatores que podem nascer da forma como o trabalho é organizado e liderado.


A proposta deste conteúdo é direta: conversar sobre saúde mental para além da obrigatoriedade. Entender por que o Janeiro Branco existe, por que o tema virou pauta regulatória e, principalmente, enfrentar um pensamento ainda comum: “saúde mental é responsabilidade do indivíduo; a empresa não tem nada a ver com isso.”


Por que o Janeiro Branco existe?


O Janeiro Branco surgiu como uma campanha de conscientização para incentivar as pessoas a cuidarem da saúde emocional com a mesma seriedade com que cuidam do corpo. Janeiro foi escolhido por simbolizar “folha em branco”, recomeço, planejamento e revisão de rotas.


Na prática, a campanha ajuda a:


  • Reduzir estigma (“isso é frescura”, “é falta de força”);

  • Orientar busca por apoio (psicoterapia, rede de apoio, serviços de saúde);

  • Promover conversas seguras sobre sofrimento psíquico;

  • Incentivar a prevenção, e não só tratamento quando “explode”.


Só que, com o tempo, o debate amadureceu: ficou evidente que o sofrimento mental não se explica apenas por características individuais. Contexto importa e o trabalho é um dos contextos mais determinantes na vida adulta.

 


Por que saúde mental virou “obrigatoriedade”? Porque virou risco real


Quando um tema vira regulatório, geralmente é porque ele já se mostrou relevante o suficiente para gerar dano recorrente: afastamentos, acidentes, perda de qualidade, queda de produtividade, conflitos e adoecimento. Com saúde mental, a realidade é essa.


No ambiente de trabalho, fatores psicossociais podem atuar como gatilhos ou agravantes, por exemplo:


  • metas agressivas sem recursos compatíveis;

  • jornadas prolongadas e descanso insuficiente;

  • ambiguidade de papel (“ninguém sabe de quem é a responsabilidade”);

  • liderança pelo medo, exposição pública, humilhação;

  • baixa autonomia e alta cobrança;

  • assédio moral/sexual e discriminação;

  • falta de apoio após incidentes críticos (acidentes, perdas, violência).


A NR-01 (GRO/PGR) fortalece a lógica de que riscos devem ser identificados, avaliados e controlados — e isso inclui riscos que afetam a saúde mental quando relacionados ao trabalho. Ou seja: não se trata de “a empresa diagnosticar emoções”, e sim de gerir fatores do ambiente e da organização do trabalho que aumentam a probabilidade de adoecimento.


“Saúde mental é do indivíduo”: por que esse raciocínio não se sustenta


Esse pensamento nasce de uma mistura de tradição, desconhecimento e medo de “abrir uma caixa de Pandora”. Só que ele falha em três níveis: causal, legal e gerencial.


1) Nível causal: o trabalho influencia, sim


A saúde mental tem múltiplas causas (biológicas, sociais, emocionais). Mas negar o impacto do trabalho é ignorar o óbvio: o ambiente profissional ocupa grande parte do dia, molda rotina, sono, relações, autoestima e sensação de segurança. Se a empresa define ritmo, cobrança, comunicação, autonomia e gestão de conflitos, então ela influencia fatores que protegem ou adoecem.


2) Nível legal: risco ocupacional não é opcional


SST existe porque há um dever de prevenir danos relacionados ao trabalho. A lógica é a mesma para riscos físicos, químicos, ergonômicos e psicossociais: se o risco está ligado às condições e organização do trabalho, há responsabilidade de gestão.


Isso não significa prometer “felicidade” no emprego. Significa garantir um ambiente com prevenção, canais, critérios, medidas e resposta adequada a sinais de risco.


3) Nível gerencial: tratar como “assunto pessoal” custa caro


Quando a empresa terceiriza o problema para o indivíduo, ela costuma colher:


● mais afastamentos e presenteísmo (a pessoa comparece, mas não rende);

● erros, retrabalho e incidentes por fadiga e falta de atenção;

● conflitos e ruptura de times;

● rotatividade e perda de talentos;

● risco reputacional (inclusive em redes sociais e sites de avaliação);

● passivos trabalhistas quando assédio e negligência são apontados.


Saúde mental não é só pauta “de RH”. É continuidade operacional, gestão de risco e qualidade.


Saúde mental além da NR-01: o que muda quando a empresa leva a sério


A NR-01 pode ser o empurrão que faltava, mas um programa maduro de saúde mental vai além de “cumprir item”. Ele fortalece a cultura de cuidado e melhora o funcionamento do trabalho.


Alguns ganhos típicos:


  • liderança mais consistente e menos reativa;

  • comunicação mais clara e menos conflitiva;

  • times com mais previsibilidade e menos urgências artificiais;

  • retenção de talentos e melhor clima;

  • melhoria real dos indicadores de SST (inclusive acidentes).


Em outras palavras: reduz risco e melhora desempenho, sem romantizar o tema.


O que fazer na prática (sem virar “ação de campanha”)


A seguir, ações objetivas que funcionam bem como agenda de janeiro (e que devem seguir ao longo do ano):


1. Definir governança do tema Quem coordena? SST, RH, compliance, médico do trabalho, comitê? Sem dono, vira cartaz.


2. Mapear riscos psicossociais com método Combine fontes: entrevistas, observação de rotina, indicadores (turnover, absenteísmo, horas extras), dados de canal de denúncias, pesquisa de clima e análise de áreas críticas.


3. Treinar liderança para reconhecer sinais e agir certo Não é “virar terapeuta”. É saber conversar, encaminhar e não agravar (ex.: exposição, ironia, punição).


4. Revisar fatores organizacionais que adoecem Metas, dimensionamento, jornada, pausas, plantões, conflitos de papel, critérios de cobrança, rituais de comunicação.


5. Fortalecer prevenção de assédio e resposta a incidentes Política clara, canal confiável, investigação consistente, proteção contra retaliação e ações corretivas.


6. Criar rotas de cuidado e encaminhamento Acesso a apoio psicológico (interno ou parceria), orientação ao uso do SUS/convênio, protocolos para crise e pós-crise.


7. Medir e ajustar (melhoria contínua) Estabeleça poucos indicadores úteis e revise mensalmente: afastamentos, horas extras, denúncias, clima, incidentes, turnover em áreas críticas. 


Conclusão

 

Janeiro Branco não é “moda” e a NR-01 não virou o tema por acaso. O que mudou foi o nível de consciência: saúde mental passou a ser vista como risco real, com impacto humano e operacional. E isso exige uma postura adulta das empresas: reconhecer que, embora o indivíduo tenha sua história e responsabilidades, o trabalho também pode proteger ou adoecer.


Em 2026, o diferencial não será publicar uma arte na intranet. Será construir um ambiente onde metas coexistem com respeito, onde liderança sabe agir, onde riscos psicossociais são tratados com método e onde pedir ajuda não vira motivo de estigma.

 
 
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